Visão Panorâmica do Livro de Números
O Livro de Números é o quarto do chamado Pentateuco de Moisés, isto é, os cinco primeiros livros da Bíblia. Passou a ser denominado desta forma depois da Septuaginta, por causa dos registros sobre as duas contagens (censos) do povo de Israel.
Números tem seu nome originário do hebraico, que é Bemidbar, cujo significado é “No Deserto”. Assim sendo, seu objetivo maior não é tratar de contabilidade, mas, sim, da jornada de Israel pelo deserto rumo à Terra Prometida.
Números não se restringe apenas em contagens e levantamentos estatísticos (presentes em seus capítulos iniciais e finais). Seu conteúdo vai muito além disso. Este livro narra a jornada desafiadora do povo de Deus desde o Monte Sinai até as planícies de Moabe, nas margens do rio Jordão, nas fronteiras da Terra Prometida. O período coberto no livro chega a aproximadamente 40 anos.
O livro de Números preenche algumas lacunas da narrativa presente entre a legislação recebida no Monte Sinai (Êxodo e Levítico) e a entrada na terra de Canaã (Deuteronômio). Também trata das histórias de provação, rebelião, disciplina, falhas dos israelitas e a fidelidade de Deus, no cumprimento de suas promessas.
Contexto Histórico do Livro de Números
Números aborda um período crítico da história de Israel. Nesta época, Deus havia libertado Seu povo da escravidão do Egito e estabelecido uma aliança com eles no Sinai. Este ponto é a referência para tratar dos temas abordados em Números, isto é, a caminhada em direção à Terra Prometida, marcada pela rebelião e falta de fé do povo que resultaram em 40 anos de peregrinação no deserto.
De forma resumida, poderemos destacar o contexto histórico e cultural da época:
O Êxodo
Para compreender o livro de Números é necessário saber do que trata Êxodo (acessar resumo completo sobre Êxodo). Neste livro vemos a libertação milagrosa de Israel da escravidão no Egito. Este evento grandioso resgata a memória da opressão e o poder libertador de Deus.
É também em Êxodo que vemos o registro da Aliança no Monte Sinai, onde Deus estabeleceu um pacto com Israel, dando-lhes a Lei. Essa aliança definia seu relacionamento com Deus e suas responsabilidades como povo escolhido.
A jornada no Deserto
O período de peregrinação no deserto foi árduo e desafiador para os israelitas. No início, faltava água e comida, existia a exposição às ameaças e aos inimigos. Embora Deus mostrasse suas provisões constantes, o povo constantemente murmurava.
Neste período Israel estava organizada em doze tribos, cada uma com sua própria linhagem. A disposição do acampamento reflete essa estrutura tribal e a importância da ordem e da unidade.
Vale destacar que a jornada pelo deserto não consistia em uma mera peregrinação. Israel enfrentou muitos inimigos que se opunham de forma perigosa. A maior parte dos povos opositores era formada pelos amalequitas e amorreus.
Estrutura e Temas do Livro de Números
Depois deste pequeno apanhado histórico, podemos dividir o livro de Números em seções, de acordo com a estrutura dos capítulos. O livro pode ser dividido em três seções principais:
- Preparação no Sinai (Números 1-10): Trata da organização do povo de Israel pós escravidão no Egito. Inclui os dois censos, a organização das tribos, responsabilidades dos levitas, leis sobre pureza cerimonial e a celebração da segunda Páscoa.
- A Peregrinação no Deserto (Números 11-25): Aborda as provações, murmurações e rebeliões dos israelitas durante a peregrinação. Fala da escolha dos setenta anciãos, a rebelião de Corá, Datã e Abirão, a murmuração pela falta de água, a serpente de bronze, a vitória sobre Seom e Ogue, e os episódios envolvendo Balaão e o pecado de Baal-Peor.
- Preparação para a entrada na Terra Prometida (Números 26-36): Inclui um segundo censo (depois da morte da geração que saiu do Egito), a designação de Josué como sucessor de Moisés, leis sobre ofertas e votos, a divisão da terra entre as tribos e sobre as cidades de refúgio e heranças.
O Primeiro Censo e a Organização (Capítulos 1-4)
Registram o primeiro censo dos homens de Israel com vinte anos ou mais, que estariam aptos para guerrear (cerca de 603.550). Além disso, aborda a organização do acampamento ao redor do Tabernáculo, bem como as responsabilidades específicas dos levitas em relação aos cuidados no Tabernáculo.
Esta seção enfatiza a importância de se fazer as coisas em ordem, sobretudo as relacionadas à obra do Senhor. A organização do acampamento mostra que Deus é o centro de nossas vidas. O censo diz muito sobre o cuidado de Deus em conhecer cada um dos integrantes do seu povo. Já a responsabilização dos levitas para o serviço sagrado mostra que se faz necessário cada um seguir seu ministério específico, diante do serviço ao Senhor.
Efésios 4:11-12-11E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,12 Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo.
Leis de Pureza e Votos (Capítulos 5-9)
Aqui observamos as leis sobre a retirada, do acampamento, das pessoas impuras. A ênfase na pureza cerimonial aponta para uma reflexão acerca da santidade de Deus.
1 Pedro 1:15-16- 15Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo.
Também são tratadas questões como a confissão de pecados e a restituição, e o ciúme. A lei sobre a confissão e a restituição enfatiza a importância do arrependimento e da reparação pelos pecados cometidos.
Tiago 5:16– Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração do justo pode muito em seus efeitos.
Do mesmo modo, é apresentada a bênção sacerdotal e a lei do voto de nazireu, uma consagração voluntária especial a Deus por um período determinado. Esse voto representa a dedicação especial a Deus para um serviço mais intenso, de um modo separado e livre das amarras deste mundo.
Romanos 12:2- E não sejais conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.
Por fim, vemos a renovação da celebração da Páscoa para que o povo não esquecesse da libertação da escravidão do Egito.
As Ofertas e a Partida (Capítulos 7)
Aqui são abordados os detalhes relacionados às ofertas trazidas pelos representantes de cada tribo para a dedicação do Tabernáculo. As ofertas eram bastante diversificadas e demonstravam o compromisso com a obra. Por meio desse compromisso, entendemos que os líderes devem ser os primeiros a contribuir e que a contribuição deve ser voluntária e amorosa.
2 Coríntios 9:7- Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.
Consagração e a Celebração Da Páscoa (Capítulos 8-9)
O livro de Números descreve nestes capítulos a cerimônia de consagração dos levitas. Eles deveriam realizar serviços no Tabernáculo. Esta separação dos levitas reforça a ideia de separação e dedicação para o serviço de Deus.
Além disso, é registrada a celebração da Páscoa no primeiro ano após a saída do Egito. Esta festa lembra a libertação do Egito e aponta para a redenção futura através de Cristo.
1 Coríntios 5:7– Purificai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.
Estes capítulos também falam da provisão para aqueles que não puderam celebrar a Páscoa no tempo certo. Isso demonstra a misericórdia e a flexibilidade de Deus, oferecendo oportunidades para o arrependimento e a participação na sua graça.
A Partida Do Sinai (Capítulo 10)
O capítulo 10 descreve os preparativos para a partida do Sinai. No momento da saída, o povo é convocado por trombetas, como sinal para o início da marcha. A arca da aliança era o ponto de referência e liderava a jornada, simbolizando a presença e a direção de Deus na vida do seu povo.
Na partida, Moisés convida Hobabe, filho de seu sogro Jetro, para a acompanhá-los como guia, o que reflete a sabedoria de buscar conselho e ajuda de outros, mesmo confiando na liderança divina.
Murmurações e Rebeliões no Deserto (Capítulos 11-17)
Pouco depois da saída do Sinai, os israelitas começaram a murmurar. Reclamavam das dificuldades na jornada e demonstravam vontade de regressar ao Egito. Deus, porém, não desamparou seu povo. Tratou de enviar codornizes em abundância, mas, por causa de tanta reclamação, também enviou uma praga como juízo.
Temos que ter cuidado com a murmuração e a ingratidão. A resposta de Deus enviando suprimentos, mostra sua paciência, mas o juízo, sua justiça.
Filipenses 2:14- Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas.
Como Moisés se sentia sobrecarregado, foi instruído a escolher setenta anciãos para ajudá-lo a liderar o povo. Isso demonstra a importância de o líder delegar responsabilidades.
A Oposição De Miriã E Arão (Capítulo 12)
Os irmãos de Moisés o criticaram por seu casamento com uma mulher cuxita e, consequentemente, se teria autoridade profética. Por conta disso, Deus intervém, defende a liderança de Moisés e pune Miriã com lepra por sete dias.
A advertência trata-se do combate a inveja, a crítica destrutiva e a oposição à liderança estabelecida por Deus.
Hebreus 13:17– Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.
Após isso, Moisés intercede por Miriã e ela é curada, demonstrando a misericórdia de Deus mediante o poder da oração.
Os Doze Espiões E A Rebelião Do Povo (Capítulos 13-14)
Esta seção retrata uma das passagens mais conhecidas do livro de Números, o envio dos doze espiões para o reconhecimento da Terra Prometida. Como já sabemos, dez deles retornam com um relatório pessimista, enquanto Josué e Calebe (ver estudo sobre Calebe) trazem um relatório encorajador, confiando na promessa de Deus.

Por causa do relato negativo dos dez, o povo se rebela e se recusa a lutar pela Terra Prometida. Essa rebelião custou caro. Deus decretou que toda a geração que saiu do Egito morreria no deserto, sem ter o privilégio de entrar em Canaã. As exceções seriam Josué e Calebe, que foram fiéis às promessas de Deus.
A incredulidade e a desobediência trazem sérias consequências. O exemplo de Josué e Calebe destaca a importância da fé e da confiança nas promessas de Deus, mesmo diante de desafios.
Romanos 4:21-E estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer.
Leis Sobre Ofertas E O Sábado (Capítulo 15)
São abordadas, aqui, as leis adicionais sobre diferentes tipos de ofertas que os israelitas deveriam fazer quando entrassem na Terra Prometida. Essas leis reforçam a ideia de que a adoração e a gratidão a Deus devem ser expressas através de atos concretos.
São também tratadas as orientações sobre a santidade do sábado. É neste capítulo que vemos a história de apedrejamento de um homem que estava colhendo lenha no sábado. Este incidente serve como um sério aviso sobre a importância da obediência aos mandamentos de Deus.
A Rebelião De Corá, Datã E Abirão (Capítulos 16-17)
Nesta seção é registrada a rebelião do levita Corá (ou Coré), junto com Datã e Abirão, da tribo de Rúben. Eles se manifestavam contra a autoridade sacerdotal de Moisés e Arão.
A ação de Deus sobre esses rebeldes ocorreu de forma poderosa. Ele fez a terra se abrir e engolir todos os rebeldes junto com suas famílias. Deus também enviou uma praga que matou milhares de pessoas.
Temos que ter muita vigilância para não nos tornarmos rebeldes contra a liderança divinamente instituída. A arrogância e a inveja são os grandes causadores das rebeliões.
Judas 1:11- Ai deles! Porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré.
Sobre a confirmação do sacerdócio de Arão, Deus fez um milagre. Por meio de Sua palavra, a vara de Arão floresceu. Este ato divino confirma a escolha de Deus e a importância do sacerdócio.
Hebreus 5:4- E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão.
Deveres Dos Levitas (Capítulos 18-19)
Nestes capítulos Números detalha as responsabilidades dos sacerdotes e levitas e que estes terão sua sustentação por meio dos dízimos e ofertas das outras tribos. Com isso, Deus demonstra a importância do serviço integral a Deus e para os que o fazem haverá a provisão.
1 Coríntios 9:13- Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar?
São apresentadas também as leis da purificação para aqueles que entraram em contato com um cadáver. Para esta purificação eram utilizadas as cinzas de uma novilha vermelha. Esta lei aponta para a necessidade de purificação dos pecados, prefigurando a purificação suprema de Cristo na cruz.
Hebreus 9:14- Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?
A Falha De Moisés E A Morte De Arão (Capítulo 20)
Essa passagem é uma das mais emblemáticas da bíblia. Quando o povo murmurava por falta de água em Cades, Deus instrui Moisés que fale com a rocha para ela produzir água.
No entanto, Moisés, por estar irado com tanta murmuração do povo, acaba golpeando a rocha por duas vezes. Além disso, ele não santificou a Deus diante do povo. Por causa disso, Moisés é impedido por Deus de entrar na Terra Prometida.
Aqui observamos que mesmo os grandes líderes como Moisés estão sujeitos ao erro ou ao pecado. Devemos compreender que é de extrema importância obedecer e honrar as instruções de Deus.
Este capítulo também marca a morte de Arão no Monte Hor. Para tomar seu lugar como sumo sacerdote, Eleazar, seu filho, é designado.
Vitórias Sobre Os Cananeus E Os Amorreus, E A Serpente De Bronze (Capítulo 21)
Sob a liderança de Deus, Israel derrota o rei cananeu de Arade. Após isso, vemos o povo continuar murmurando por conta da jornada no deserto. Essa murmuração fez Deus enviar serpentes venenosas que os mordiam.
Cientes de que estavam sendo castigados, os israelitas se arrependem e clamam a Moisés. Deus, portanto, os instrui a fazerem uma serpente de bronze que deveria ser posta em um poste alto no deserto. Todo aquele que fosse picado deveria olhar para a serpente para ser curado.
Essa história ilustra a salvação pela fé. A serpente de bronze pendurada em uma haste, representa Jesus pendurado em uma cruz. Assim como os israelitas precisavam olhar para a serpente para serem curados, nós precisamos olhar para Cristo crucificado para receber a salvação.

João 3:14-15- 14E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; 15 Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Neste capítulo também é registrada a vitória de Israel sobre Seom, rei dos amorreus, e Ogue, rei de Basã, e a conquista de suas terras.
A Profecia De Balaão (Capítulos 22-24)
A nação de Israel estava se tornando bastante famosa pelos seus feitos. Isso fez com que Balaque, rei de Moabe, temesse uma possível invasão de suas terras. Por isso, contrata o profeta Balaão para amaldiçoar os israelitas.
No entanto, Deus intervém para que nada pudesse acontecer contra seu povo. Até uma jumenta foi usada para falar com o profeta Balaão. O que seriam maldições, se transformaram em bênçãos. Balaão viu que Deus estava com Israel e profetizou bênçãos e ainda predisse sua grandeza futura e a vinda de um rei messiânico (Números 24:17).
O Pecado Em Sitim E O Zelo De Fineias (Capítulo 25)
Neste capítulo de Números vemos a prostituição dos homens israelitas com as mulheres moabitas. Isso ocorreu quando Israel se encontrava acampada em Sitim, Além de se prostituir, eles adoraram os deuses destas mulheres, especialmente Baal-Peor. A idolatria não ficou impune. Deus enviou uma praga como juízo.
Em meio a essa epidemia, estava ocorrendo uma reunião, em que se encontrava Fineias, neto de Arão. Ele viu um homem israelita entrar na tenda juntamente com uma mulher midianita. Fineias saiu da reunião, pegou uma lança e seguiu o homem. Lá, matou os dois, enfiando uma lança através de seus corpos. Isto fez parar a epidemia.
Fineias demonstra grande zelo por Deus ao executar publicamente um israelita e uma mulher midianita que estavam cometendo pecado descaradamente. Por causa disso, o Senhor disse a Moisés que estabeleceria uma aliança de paz com Fineias e que ele e sua descendência seriam sacerdotes para sempre.
O Segundo Censo (Capítulos 26-36)
Na parte final do livro de Números está registrado um novo censo para a contabilização do povo que estava entrando na Terra prometida. Nesta seção também vemos a escolha de Josué como sucessor de Moisés, além do estabelecimento das leis sobre sacrifícios e sobre a herança das mulheres.
Mediante essas mudanças, percebemos que Deus prepara líderes para Seu povo (2 Tm 2:2) e chama cada geração para cumprir Seus propósitos.
Conclusão
Depois deste estudo sobre o livro de Números poderemos compreender um pouco mais sobre a relação entre fé, obediência e a fidelidade de Deus. Números nos ensina que devemos evitar as murmurações e sempre confiar na provisão de Deus, permanecendo firmes no caminho da santidade. Espero que este estudo possa servir de grande inspiração para sua vida em sua jornada espiritual. Que Deus te abençoe!
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Sou professor de Química e seguidor de Cristo Jesus. Faço parte da Igreja Assembleia de Deus, em Icapuí-CE. Amo estudar a palavra de Deus, pois sei que dela vem o verdadeiro conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Acredito, também, que é por meio da compreensão das escrituras que poderemos experimentar o autêntico avivamento espiritual, por isso devemos examiná-las.

