Deuteronômio

Resumo do Livro de Deuteronômio: A Renovação da Aliança

Visão Panorâmica do Livro de Deuteronômio

O nome dado ao livro de Deuteronômio deriva do grego “Deuteronomion”, que quer dizer “segunda lei” ou “repetição da lei”. Em hebraico, o livro é chamado “Devarim” (דְּבָרִים), que significa “Palavras”, retirado da frase inicial “Estas são as palavras que Moisés falou a todo o Israel…”.

 

É o quinto e último livro do Pentateuco (ou Torá, para os judeus), e narra desde a caminhada no deserto, liderada por Moisés, até a preparação para a conquista da Terra Prometida sob a liderança de Josué. É marcado pela série de discursos de instruções e de despedida proferidos por Moisés nas planícies de Moab, pouco antes de sua morte e antes da entrada de Israel na Terra Prometida.

 

O propósito central de Deuteronômio é renovar a aliança entre Deus e Israel. Por isso observamos a repetição das leis estabelecidas em Êxodo, Levítico e Números (Acesse os estudos sobre estes livros) para uma nova geração que não viu a libertação do Egito.

 

Por meio de exortações, Moises quer preparar todo povo para os desafios que enfrentaria. Ele relembra a fidelidade e as ações poderosas de Deus, as exigências da aliança e adverte contra a idolatria e a desobediência. O livro enfatiza, ainda, a possibilidade de escolha por parte de Israel:  a vida e a bênção através da obediência, ou a morte e a maldição através da desobediência.

 

O livro de Deuteronômio pode ser dividido em três grandes discursos de Moisés e uma seção conclusiva.

 

  • Primeiro Discurso (Capítulos 1-4): aborda a exortação do povo e relembra os feitos de Deus para com os israelitas.
  • Segundo Discurso (Capítulos 5-26): é retratada a Lei da Aliança Este abrange a maior parte do livro e Moisés expõe o coração da Lei (Torá) para a nova geração.
  • Terceiro Discurso (Capítulos 27-30): observamos orientações para uma vida futura na Terra Prometida. São tratados temas relacionados à Bênçãos, Maldições e Renovação da Aliança.
  • Seções Conclusivas (Capítulos 31-34): tratam das orientações finais, do legado de Moisés e da transição da liderança para Josué.

 

Resumo Dos Capítulos

 

Capítulos 1-4: Recapitulação da Jornada

 

Moisés inicia seu discurso fazendo uma recapitulação da história de Israel. Ele fala da jornada desde o Sinai, a tomada das terras, nomeação dos líderes, a rebelião em Cades-Barneia (o relatório negativo dos espias e a incredulidade do povo), as vitórias sobre Seom, rei dos amorreus e Ogue, rei de Basã, a nomeação de Josué como sucessor e a chamada à obediência e à fidelidade. O objetivo é lembrar a nova geração os feitos do Senhor e os erros cometidos pelos seus pais.

Vale lembrar que esses erros foram determinantes para que Israel recebesse do Senhor a sentença divina de vagar 40 anos pelo deserto de maneira que a geração que saiu do Egito não entrasse na Terra Prometida.

 

Hebreus 3:16-17-16Porque, havendo-a alguns ouvido, o provocaram; mas não todos os que saíram do Egito por meio de Moisés. 17 Mas com quem se indignou por quarenta anos? Não foi porventura com os que pecaram, cujos corpos caíram no deserto?

 

Moisés também relembra o pedido que fez a Deus, para que pudesse entrar na Terra Prometida. Contudo, por causa do incidente em Meribá, teve seu pedido negado. Mas, ainda teve o privilégio de contemplar a terra de Canaã do Monte Nebo. Depois disso, confirma Josué como seu sucessor.

 

Moisés também adverte o povo sobre a idolatria, para que não cometessem o mesmo erro ocorrido no Sinai. De acordo com ele, a obediência à Lei seria a fonte de sabedoria de Israel. Moisés prevê apostasias, mas também oferece a esperança de restauração em Deus, por meio da obediência.

 

Capítulo 5: Repetição dos Dez Mandamentos

 

Aqui, mais uma vez, Moisés apresenta os Dez Mandamentos, enfatizando que são as palavras diretas de Deus em Horebe. Em relação à versão encontrada em Êxodo, existem algumas variações, a mais evidente é a do sábado, que é abordada aqui como relacionada a libertação do Egito, enquanto em Êxodo, vincula à criação.

Moisés exortando o povo de Israel
Moisés exortando o povo de Israel

 

Capítulo 6: O Shemá e o Grande Mandamento

 

Neste capítulo, encontramos a confissão de fé fundamental do judaísmo denominada Shemá. A confissão “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”, enfatiza o primeiro mandamento, que é: amar o Senhor Deus de todo o coração, alma e força.

 

Moisés ensina ao povo que estas palavras não podem ser esquecidas. Muito pelo contrário, devem ser ensinadas com bastante veemência para os filhos e gerações posteriores. Ele deu tanta ênfase que orientou que as palavras deveriam estar gravadas nas mãos, testa e portas.

 

Capítulos 7-11: Exortações à Fidelidade

 

No decorrer dos capítulos 7 e 8 nos deparamos com advertências sobre os perigos na Terra Prometida. A instrução para Israel é de que todas as nações cananeias deveriam ser destruídas. Isso era uma prevenção quanto a idolatria, ou seja, Israel não deveria se contaminar pelas práticas pecaminosas dessas nações.

 

No capítulo 8 há uma advertência contra o orgulho e o esquecimento de Deus. Os israelitas não poderiam esquecer das palavras ditas no Sinai, dos livramentos e provisões no deserto e nem das orientações dadas por Deus, para continuarem desfrutando da abundância de Canaã.

 

No início desta seção a congregação é lembrada sobre sua rebeldia em Horebe, quando foi construído um Bezerro de Ouro para ser adorado. Moisés deixa bem claro que a posse de Canaã nada tem com o mérito ou justiça de Israel. Na realidade a maior razão é a fidelidade de Deus no cumprimento da promessa feita aos patriarcas. Além disso, existia a maldade das nações cananeias, que desagradava a Deus.

 

O capítulo 10 trata da exigência fundamental é a “circuncisão do coração”, que não é a mesma do ritual judaico realizado com a criança de poucos dias de vida. Aqui se trata de uma transformação interior, cujo reflexo é amar a Deus e ao próximo, cuidando do órfão, da viúva e do estrangeiro.

 

Mais uma vez há ênfase na obediência constante. Para tanto, são lembradas as lições relacionadas a saída do Egito e jornada no deserto. Além disso, Moisés repete a relação entre a escolha entre a bênção e a maldição, que estão associadas a obediência ou não a Deus.

 

Capítulos 12-26: Leis para a Terra Prometida

 

Esta seção encontra-se o “código Deuteronômico”, isto é, o detalhe das leis que são específicas para o governo em Canaã. Vamos dividir esta seção em alguns temas:

 

Adoração (Cap. 12-13):  Trata das orientações relacionadas ao lugar de adoração, que deveria ser em Jerusalém, para evitar a sincretização e misturas pagãs. Também deveriam ser destruídos todos os altares de cultos cananeus. As leis também tratavam de advertências severas contra falsos profetas e idolatras.

 

Leis Rituais e Sociais (Cap. 14-15):  São as leis que orientam sobre alimentos puros e impuros, o dízimo de sustentação dos levitas, celebrações e cuidado dos pobres, o ano sabático, remissão das dívidas e a libertação de escravos hebreus.

 

Festas e Justiça (Cap. 16): Fala das três festas anuais de peregrinação: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. Essas festas relembram as provisões de Deus. Também trata da exigência de nomear juízes justos para todas as cidades.

 

Liderança (Cap. 17-18):  Esses capítulos falam sobre Leis direcionadas a um eventual rei. Este não deveria acumular muitas riquezas ou ter muitas mulheres. Além disso, abordam temas como a provisão para os sacerdotes levitas e a rejeição de práticas pagãs e a promessa de Deus de levantar um profeta como Moisés, a quem o povo deveria ouvir (alusão a vinda de Jesus- Atos 3:22-23).

 

Justiça e Guerra (Cap. 19-20): Estabelece as cidades de refúgio para proteger as pessoas que cometeram homicídios de forma involuntária. Outras coisas abordadas são: as leis sobre testemunhas (mínimo de duas ou três) e perjúrio; os marcos das propriedades; leis para a condução da guerra.

 

Leis Diversas (Cap. 21-25): Várias leis sobre diversos assuntos e situações do dia a dia dos israelitas. Alguns dos assuntos são: expiação por assassinato não resolvido, tratamento de mulheres cativas, direitos do primogênito, filho rebelde, respeito aos mortos, devolução de propriedade perdida, proibição de misturas (transgênero no vestir, plantio, jugo), segurança em construções.

 

Além disso, outras leis de instruções sobre: casamento, divórcio, acusações de infidelidade, estupro, regulamentos sobre a assembleia do Senhor, higiene no acampamento, tratamento de escravos fugitivos, proibição da prostituição, juramentos, votos, divórcio. Assuntos relacionados a doenças, tratamento de órfãos, viúvas, pobres e estrangeiros também eram tratados nessas leis.

 

Primícias e Dízimos (Cap. 26): Nesta última seção, são descritas as cerimônias de oferta das primícias e da declaração sobre o terceiro ano do dízimo (destinado aos levitas e pobres). Aborda, também, a história de fidelidade de Deus desde os patriarcas até a libertação do Egito e a entrada na terra de Canaã. O final do capítulo é marcado pela reafirmação da aliança entre Deus, que declara Israel Seu tesouro pessoal, e Israel, que se compromete a obedecer ao Senhor.

 

Capítulos 27-30: Renovação da Aliança

 

No capítulo 27 encontramos instruções sobre a cerimônia de entrada em Canaã. A lei deveria ser escrita em grandes pedras caiadas, erguidas no Monte Ebal. As tribos deveriam ser distribuídas em duas partes, metade ficaria no Monte Gerizim para pronunciar as bênçãos (dadas aqueles que obedeceram às leis de Deus), e a outra metade no Monte Ebal para pronunciar as maldições causadas pela desobediência (transgressões como idolatria, desrespeito aos pais e injustiça).

 

São detalhadas as bençãos causadas pela obediência e as terríveis maldições resultantes da desobediência. As bênçãos incluem prosperidade, fertilidade, vitória sobre inimigos e exaltação entre as nações. Já as maldições estão relacionadas com o sofrimento relacionado às: doenças, fome, derrota, exílio, opressão e desespero.

 

Neste capítulo, Moisés reúne todo o Israel nas planícies de Moab para renovar a aliança feita em Horebe. Ele falou dos sinais e maravilhas que Deus realizou desde a saída do Egito. Também lamentou que o povo, mesmo diante tantos milagres, ainda não conseguia compreender de verdade os planos de Deus para com Israel. Ele adverte contra a apostasia secreta que levaria à calamidade descrita no capítulo anterior.

 

Mesmo diante de uma previsão não tão boa para Israel (desobediência e exílio), Moisés fala de esperança profetizando que mesmo dispersos entre as nações, se Israel se arrepender das transgressões e voltar para Deus, Ele os restaurará à sua terra. Mais uma vez a escolha entre vida e morte é colocada diante dos israelitas. E como das outras vezes, Moisés exorta para a escolha pelo amor e obediência a Deus.

 

Capítulos 31-34: A Transição e o Legado de Moisés

Aqui Moisés, já com 120 anos, trata de sua sucessão. Ele apresenta Josué como seu substituto e o credencia como homem de Deus.  Ele entrega a Lei escrita aos sacerdotes e anciãos, ordenando sua leitura pública a cada sete anos, durante a Festa dos Tabernáculos. Aqui também está a revelação de Deus a Moisés sobre o futuro de Israel após sua morte. Deus mostra a grande apostasia do seu povo e instrui Moisés a escrever um cântico como testemunha contra eles.

 

Nestes capítulos, contemplamos o Cântico de Moisés, que é um poema que exalta a fidelidade e a justiça de Deus, como sendo “a Rocha”. Esse poema trata do contraste entre esses atributos maravilhosos de Deus com a infidelidade, corrupção e idolatria de Israel, que é a “geração perversa e distorcida”.

 

O cântico inicia com a eleição de Israel, o cuidado de Deus com sua nação escolhida. Depois fala de sua rebeldia e juízo divino, que ocorre por meio das nações inimigas. No final, vemos a promessa de vingança de Deus contra os inimigos de Israel e expiação pela Sua terra e Seu povo.

 

Nos últimos capítulos de Deuteronômio, temos o registro da Bênção de Moisés, que ocorre antes de sua morte. Ele pronuncia as bênçãos sobre as tribos de Israel, destacando características de cada tribo, bem como seus destinos específicos (assim como fez Jacó).

 

Também encontramos o relato da morte de Moisés. No capítulo 34, Deus leva Moisés ao cume do Monte Nebo (Pisga) e lhe mostra toda a Terra Prometida, de Gileade a Dã, até o Mar Ocidental. Ali mesmo Moisés morre e é sepultado por Deus em um lugar desconhecido.

 

O final do capítulo é marcado por um elogio a Moisés que ficou conhecido como um homem que tinha intimidade com Deus (“a quem o Senhor conheceu face a face”) e que realizou poderosos sinais e maravilhas. Há também um destaque para Josué, considerado um homem cheio do espírito de sabedoria.

A  importância de internalizar e lembrar a Palavra de Deus
A importância de internalizar e lembrar a Palavra de Deus

Ensinamentos de Deuteronômio para Nossas Vidas

O livro de Deuteronômio contém ensinamentos e implicações importantes para as nossas vidas. Esses princípios e ensinamentos apresentam relevância duradoura para os crentes. Vejamos alguns desses ensinamentos:

 

  1. Amar a Deus: Deuteronômio nos ensina que devemos amar a Deus de todo o coração, alma e força (Dt 6:5). Este mandamento continua sendo a essência da vida espiritual. Além disso, há ênfase a necessidade de obediência, que não deve ser mera formalidade, mas uma resposta de amor e gratidão a Deus.
  2. A importância da Palavra de Deus: Deuteronômio nos instrui a dar importância a Lei de Deus, pois ela é a bússola de nossas vidas. É necessário, portanto, conhecer, meditar, ensinar e viver a Palavra de Deus em nosso dia a dia (Dt 6:6-9; Salmo 119). As diversas leis mostram que a fé não se limita a rituais religiosos, mas permeia todas as áreas da vida – família, trabalho, economia, relacionamentos etc.
  3. Necessidade de Lembrança do agir de Deus: Este livro também nos chama a atenção para lembrarmos constantemente dos atos de Deus. No caso dos israelitas, da libertação do Egito, da provisão no deserto e das exigências da aliança. No nosso caso, das bênçãos e livramentos diários. Devemos cultivar a memória da fidelidade de Deus para conosco para não cairmos  no pecado da ingratidão.
  4. O Perigo da Idolatria: O alerta contra a idolatria não servia apenas para os israelitas daquela época. Embora não nos curvemos a imagens literais, a idolatria assume formas modernas: o materialismo, o poder, o ego, ideologias, ou qualquer coisa que tome o lugar de Deus em nossos corações (Colossenses 3:5).
  5. Justiça Social e Compaixão:  O último livro do pentateuco ensina que não devemos esquecer dos necessitados, tais como: os pobres, órfãos, viúvas, estrangeiros e trabalhadores (e.g., Dt 10:18-19; 15:7-11; 24:14-22). Como crentes, devemos praticar a justiça e a compaixão, refletindo o caráter de Deus.
  6. Escolher o caminho certo: Também é visto neste livro que a responsabilidade de escolha do rumo de nossa vida é totalmente nossa (no sentido individual ou coletivo). Podemos escolher entre a vida ou a morte e bênção ou maldição. Estas escolhas são uma realidade contínua (Dt 30:19).
  7. A Aliança com Deus: Deuteronômio nos ensina sobre o relacionamento pactual com Deus – um relacionamento baseado nas promessas e na graça de Deus, mas que também exige lealdade, obediência e amor da nossa parte.

 

Conclusão

 

Para quem não conhece, Deuteronômio parece uma “segunda lei” ou repetição das leis já ditas no Sinai. Contudo, este livro é muito mais do que isso. Nele, encontramos uma riqueza de detalhes sobre as características do povo de Israel, e principalmente, as de Deus, que requer de nós fidelidade no cumprimento de seus ensinamentos.

 

Em Deuteronômio fica clara as exigências de Deus, no âmbito da santidade, a gravidade do pecado e a maravilha de Sua graça restauradora. Nele, compreendemos o padrão para uma vida pautada no amor, perdão, compaixão e empatia com o próximo.

 

Deuteronômio, portanto, é um chamado à fidelidade e à obediência. Ele nos ensina que nossa relação com Deus deve ser baseada no amor e na confiança. Assim como Israel teve que escolher entre a vida e a morte, cada pessoa hoje também precisa decidir seguir a Deus. Que possamos dizer como Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15). Que Deus te abençoe!

 

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